Reggaeton

conquista o

Brasil

Allianz Parque lotado. Mais de quarenta e cinco mil pessoas aguardam o show do cantor porto-riquenho Bad Bunny. É vinte de fevereiro de 2026, pleno verão em São Paulo. O calor é intenso, mas ninguém parece se importar. A multidão se reúne para celebrar, cantar e, claro, perrear muito. Uma hora antes do início, a banda Chuwi, também de Porto Rico, sobe ao palco e aquece o público. Às oito e meia da noite, as luzes se apagam. O vídeo de abertura começa a rodar nos telões. Nele, duas pessoas do país onde o show acontece contam um pouco da história de Benito Antonio Martínez Ocasio, o nome por trás do fenômeno mundial conhecido como Bad Bunny. Até então, a turnê havia passado apenas por países de língua espanhola, e os vídeos de abertura eram todos narrados em espanhol. Nas redes sociais, fãs brasileiros se perguntavam: será que aqui seria diferente?

Seria

Na tela, aparecem os jovens atores Álvaro Emílio, 17, e Lili Siqueira, de 16. Eles contam a história em português e encerram a apresentação cantando um trecho em espanhol, sendo acompanhados pelo público. Quando Bad Bunny finalmente surge no palco, o estádio explode. Palmas, gritos, a multidão em coro dizendo “Benito! Benito!”.

“Un aplauso pa mami y papi
porque en verdad rompieron”

diz Bad Bunny.

e então o show começa

Na verdade, essa reportagem não é sobre o Bad Bunny. 

É sobre algo maior: o crescimento do reggaeton e a forma como esse gênero latino tem conquistado cada vez mais espaço no Brasil. Grande parte da multidão que canta em espanhol no meio de um estádio em São Paulo não é apenas fã de um artista. Ela faz parte de um fenômeno cultural muito mais amplo que se investiga aqui. 

Nos últimos anos, o reggaeton, gênero musical que nasceu no Caribe, atravessou fronteiras linguísticas, geográficas e culturais. Hoje, artistas latinos como Bad Bunny, os colombianos J. Balvin, Maluma, Feid e Karol G, argentinos Duki, Maria Becerra, Tini e Emilia Mernes, e, a brasileira Anitta ocupam diversas vezes os primeiros lugares das paradas globais, acumulam bilhões de reproduções nas plataformas digitais e lotam estádios em diferentes partes do mundo. 

No Brasil, esse movimento também ganha força. Festas dedicadas ao gênero se multiplicam, DJs passam a incluí-lo em seus sets e o público brasileiro se integra cada vez mais ao espírito “reggaetonero”. 

Onde tudo
começou

Antes de viajar pelas músicas é importante entender de onde ela veio, qual o contexto sociocultural e a sua representatividade. 

O berço do reggaeton não é único. Sua origem remonta ao Caribe, mais especificamente ao Panamá e Porto Rico. Entretanto, seu surgimento é resultado de um encontro de ritmos, culturas e outros territórios espalhados pela região caribenha e pela diáspora latino-americana e afro-caribenha.

Para entender essa trajetória, uma das principais referências é o livro Reggaeton, organizado pelos pesquisadores Raquel Z. Rivera, Wayne Marshall e Deborah Pacini Hernandez. Nele, o reggaeton é descrito como um gênero que surge da confluência de diferentes tradições musicais e culturais. Por não possuir um único país de origem definido, ele acaba se configurando como um gênero musical essencialmente transnacional.

O Panamá é apontado como um local crucial na formação do reggaeton, visto que foi pioneiro no chamado “reggae em espanhol”. Na década de 1980, artistas panamenhos adaptaram o reggae jamaicano e o hip-hop a letras cantadas em espanhol. Paralelamente, temos a influência do movimento e da música underground porto-riquenha, que podemos dizer ser um dos principais responsáveis pelo reggaeton que conhecemos hoje. 

Por que o título Underground?

Em Porto Rico, no início da década de 1990, surgiu esse termo para diferenciar as músicas tocadas e comercializadas no mainstream das que não seguiam o padrão de mercado. As composições pertencentes ao gênero underground eram aquelas que contavam a realidade de bairros marginalizados do país, sem romantização. Falavam de temas como: a sexualidade, drogas, riqueza, pobreza, desigualdade social, racismo e violência, ou seja, temas tabus da sociedade. 

O underground circulava predominantemente em fitas cassete vendidas de maneira informal e tocava em festas de bairro. Foi nesse cenário que surgiram as primeiras manifestações das autoridades e setores conservadores da população porto-riquenha. A música passou a ser associada a comportamentos considerados imorais e prejudiciais à juventude. Em meio à política de segurança conhecida como “Mano Dura”, operações policiais chegaram a apreender e criminalizar gravações do gênero.

Mesmo com a repressão e censura, o reggaeton, ainda underground, não desapareceu. Pelo contrário, ganhou mais força em circuitos ilegais e reforçou seu caráter contestador, sendo um gênero associado a jovens periféricos, majoritariamente, negros. Para eles, a música não era só entretenimento, ela era uma forma de expressão e identidade.

Outro local importante para a definição e disseminação do reggaeton foi a cidade de Nova Iorque. Também nas décadas de 1980 e 1990, os Estados Unidos receberam um grande número de imigrantes caribenhos, muitos jamaicanos, panamenhos e porto-riquenhos, além de dominicanos, que juntos viveram e foram racializados. As gravações de músicas underground porto-riquenhas, que futuramente viriam a ser o reggaeton, também circulavam pela população latina que estava morando nos EUA.

Mas afinal, o que faz
o reggaeton soar
como reggaeton?

Apesar das diferentes influências culturais e geográficas, há um elemento que conecta todas essas histórias: o ritmo. 

No reggaeton, essa base rítmica é conhecida como dembow. Derivado do dancehall jamaicano, o padrão se tornou a espinha dorsal do gênero e ajudou a definir sua identidade sonora. Segundo o etnomusicólogo, Felipe Maia, o termo pode se referir a elementos diferentes. “O dembow é duas coisas: ele é o nome de um sample, de uma célula rítmica, e também um gênero musical”, define.

Maia explica que o ritmo ganhou força a partir de uma música chamada “Dem Bow”, do jamaicano Shabba Ranks, que acabou se tornando referência para outras produções. “Essa música estourou tanto que muita gente começou a fazer outras faixas baseadas nesse mesmo tipo de batida”, diz.

 

Ouça o estilo

A repetição desse padrão rítmico acabou ajudando a consolidar o reggaeton como gênero. Felipe Maia exemplifica: “A galera começava a dizer: ‘põe aquele beat do dembow’. E aí as pessoas rimavam em cima daquela batida. E isso vai virar o que a gente chama de reggaeton”. 

O dembow também seguiu seu próprio caminho musical. “Paralelamente, o dembow também se desenvolve como um gênero próprio dentro da República Dominicana”, diz o etnomusicólogo. 

A trajetória dessa célula rítmica ajuda a mostrar como a música circula e se transforma entre diferentes territórios e experiências sociais. Cada país recebe o gênero de uma forma e, a partir disso, adiciona suas particularidades, reforçando a importância da música para compreender a cultura. Para Felipe Maia, tratar a música apenas como reflexo da sociedade é reduzir o seu papel na experiência humana. Afinal, como ele resume, “música não é um reflexo, música é a sociedade”.

Do underground
ao mainstream

No início, o reggaeton não era estruturado em torno de grandes artistas ou gravadoras. A organização da cena acontecia principalmente por meio do trabalho de DJs e produtores independentes que reuniam diferentes MCs em compilações e mixtapes. Esses produtores tiveram um papel importante na formação da identidade sonora do gênero, ao experimentar batidas que combinavam o dancehall jamaicano, de onde deriva o dembow, com os elementos do hip-hop. Entre os DJs pioneiros que ajudaram a estruturar e produzir algumas das primeiras compilações estão DJ Playero, DJ Negro e DJ Eric. 

Essa cultura também se desenvolvia em festas conhecidas como marquesinas, realizadas nas garagens de casas em Porto Rico. Esses encontros reuniam os DJs, MCs e jovens interessados na música urbana e funcionavam como espaços de experimentação musical e sociabilidade. O gênero ainda não tinha espaço nas rádios ou na indústria musical.

O DJ Negro foi um grande nome da cena underground porto-riquenha. Ele era responsável por festas realizadas no clube The Noise, em San Juan, capital de Porto Rico, que se tornaram outro ponto de encontro para esses DJs, MCs e jovens. A partir dessas festas surgiram as coletâneas de música The Noise, que reuniam diferentes artistas e ajudaram a ampliar a circulação do gênero dentro da cena local. 

Foi nesse circuito de marquesinas, mixtapes e compilações que surgiram alguns dos artistas mais emblemáticos do reggaeton. 

TEGO CALDERÓN,
DADDY YANKEE E
A RAINHA IVY QUEEN

 

 

Mas, você deve estar se perguntando: Como que um som tão repreendido se tornou músicas de sucesso e de circulação nacional e internacional?

No início dos anos 2000, o governo local buscou “regularizar” as letras das músicas a fim de se tornarem mais “palatáveis” ao ouvido. Foram questionadas a hiperssexualização das mulheres e a linguagem usada que, segundo os órgãos de poder e as elites, incitava à violência e ao consumo de drogas. Além disso, a dança perreo também foi alvo de críticas e tentativa de censura, porque consideravam que eram movimentos muito sensuais. 

Por mais que muitos considerassem que essas mudanças roubariam a essência do gênero, elas permitiram que a música circulasse nas rádios e na indústria musical. Alguns artistas abraçaram a mudança e outros mantiveram em suas letras o tom provocativo e as denúncias sociais. 

A verdade é que essa questão é muito mais profunda: ela aborda as mudanças como uma forma de silenciar o que antes era usado como instrumento das periferias contra o sofrimento e a marginalização que sofriam. De acordo com o sociólogo Stuart Hall, que inclusive é jamaicano, práticas culturais produzidas nas margens frequentemente são deslegitimadas ou redefinidas pelas culturas dominantes, que tentam enquadrá-las dentro de padrões considerados aceitáveis. Ainda assim, artistas ligados a esses contextos encontram maneiras de preservar elementos políticos e identitários em suas composições. 

“Toda vez que você tem um movimento de Estado, tenta coibir alguma manifestação cultural, você terá uma resposta à altura”

afirma o jornalista e
etnomusicólogo Felipe Maia.

Tego Calderón é um dos artistas que mantém temas raciais em suas músicas e, ao mesmo tempo, faz elas rodarem pelo público, celebrando suas origens afro-boricuas. Em “Loiza”, presente no álbum El Abayarde (2003), Tego faz referência à cidade porto-riquenha de Loíza, conhecida por sua forte presença afrodescendente. A música mistura o reggaeton com ritmos locais da ilha, na letra o cantor exalta a herança afro de Porto Rico e também se posiciona contra a descriminação e falta de justiça que o povo preto sofre.

“Yo soy niche, orgulloso de mis raices
De tener mucha bemba y grandes narices
Ni sufriendo dejamos de ser felices
Por eso es que Papá Dios nos bendice
Nunca va a haber justicia sin igualdad
Maldita maldad que destruye la humanidad”

Enquanto artistas como Tego Calderón usavam a música para afirmar identidade e denunciar desigualdades, o gênero também começava a seguir novos caminhos.

Aquele som que circulava em mixtapes e festas de garagem começou a sair do circuito underground. As batidas que nasciam nas marquesinas passaram a aparecer em rádios, clubes e programas de televisão. Aos poucos, a indústria musical percebeu que aquele ritmo tinha potencial para alcançar muito mais gente. Segundo Felipe Maia, “isso é o casamento entre os interesses da indústria e dos artistas”.

Mas essa virada não aconteceu de repente.

Parte dessa história passa por um nome que já estava ali desde o começo: DJ Playero. Foi nas mixtapes produzidas por ele, ainda nos anos 1990, que um jovem artista começou a aparecer com mais frequência. Seu nome era Ramón Luis Ayala Rodríguez, o famoso Daddy Yankee.

Nas compilações de Playero, Daddy Yankee foi construindo seu estilo e ganhando espaço dentro da cena local. E então veio um momento decisivo.

Em 2004, Daddy Yankee lançou “Gasolina”. A música rapidamente saiu das pistas porto-riquenhas e começou a tocar em rádios, clubes e programas de televisão em diferentes países. A batida marcada do dembow e o refrão fácil de cantar ajudaram a transformar a faixa em um sucesso internacional. 

Para muita gente, esse foi o primeiro contato com o reggaeton.

“Gasolina” abriu caminho para que o gênero passasse a circular com mais força na América Latina, nos Estados Unidos e até na Europa. 

Nos anos seguintes, nomes importantes ajudaram a ampliar ainda mais essa presença. Um deles foi Don Omar, que levou o reggaeton para um público ainda maior ao misturar o gênero com elementos do pop e de baladas românticas. 

A porto-riquenha Ivy Queen ocupa um lugar fundamental dentro da cena. Conhecida como “La Caballota”, ela se destacou por trazer para o reggaeton letras que confrontavam o machismo e afirmavam a presença feminina em um gênero historicamente dominado por homens.

O reggaeton já não era mais apenas um som de nicho. Colaborações entre artistas começaram a se tornar cada vez mais comuns e o alcance das músicas crescia na mesma velocidade.

Se os anos 2000 foram o momento em que o reggaeton chegou ao mainstream, a década seguinte mudaria ainda mais a forma de ouvir música.

Com o crescimento das plataformas de streaming, as canções passaram a circular com mais facilidade entre países e continentes, sem depender apenas das rádios ou da televisão.

Foi nesse cenário que uma nova geração ganhou destaque. Artistas como J Balvin, Bad Bunny e Karol G ajudaram a renovar o gênero e a aproximá-lo do pop global. Ao lado deles, nomes mais recentes, como Feid, consolidam a força da cena colombiana, enquanto Rauw Alejandro explora novas sonoridades e amplia ainda mais as possibilidades do reggaeton contemporâneo.

Ao mesmo tempo, a Colômbia se consolidou como um dos principais centros dessa transformação. Em especial, Medellín, que passou a ser reconhecida como um polo fundamental para o reggaeton atual, reunindo artistas, produtores e uma cena musical em constante expansão. Para o pesquisador, docente da Universidade de Medellín e integrante da Agencia del Perreito, César Cardona, “o reggaeton de Medellín, que se aproxima mais do pop, mostra como o gênero vem se tornando mainstream. Hoje, ele toca por toda a cidade – nos bares, nas ruas, nos diferentes espaços – e já não é mais um consumo restrito a um bairro ou a um nicho específico, mas parte de uma indústria com estruturas próprias de produção, negócio e comercialização”.

Esse movimento não se refletiu apenas na produção musical. Ele aparece também na forma como o reggaeton passou a ocupar espaços que, até pouco tempo, pareciam distantes.

Nos números, isso se confirma. Bad Bunny voltou ao primeiro lugar entre os artistas mais ouvidos do mundo no Spotify, consolidando um domínio que já se repete há alguns anos no mercado. Em seu trabalho mais recente, o álbum Debí Tirar Más Fotos, o artista aumentou ainda mais esse alcance ao incorporar sonoridades que vão além do reggaeton –  como a salsa e outros ritmos caribenhos – sem abandonar o gênero como eixo central da sua produção. 

Esse crescimento, no entanto, não se explica apenas pelo volume de reproduções.

O reggaeton vive uma transformação dentro do próprio gênero. “O que está acontecendo hoje é que estamos na etapa em que o reggaeton está começando a explorar outras sonoridades, ao mesmo tempo em que continua se desenvolvendo”, explica o pesquisador César Cardona.

O reggaeton passou a ocupar palcos que eram, em sua maioria, dominados por artistas anglo, como o festival Coachella, além de aparecer em grandes eventos da indústria do entretenimento, como o Super Bowl e a NFL. Ao mesmo tempo, as turnês internacionais e a presença crescente de artistas reggaetoneros no Brasil ajudam a consolidar esse movimento também no contexto nacional.

Essas mudanças fazem o reggaeton perder sua essência?

A verdade é que não. O gênero é parte de uma cultura, ele é cultura, e, como tal, está sempre sujeito a mudanças e adaptações. Aqui, retomamos a importância do dembow como característica base dessa música, elemento que permanece mesmo quando o gênero se expande.

Muitos artistas reggaetoneros se aventuram por outros caminhos: Bad Bunny na salsa ou no trap, J Balvin e Karol G em diálogo com o funk brasileiro, Maluma no pop latino. Ao mesmo tempo, artistas de fora do gênero também passam a incorporá-lo em suas produções, como Anitta, Shakira e o rapper brasileiro Wiu.

E, ainda assim, ele permanece.

“Mesmo sendo mainstream, sendo pop, o reggaeton continua sendo do bairro e continua representando o bairro”, afirma o pesquisador.

Como diz o porto-riquenho Bad Bunny: “Seguimo Aquí”.

Quando o reggaeton conquista o Brasil

O carnaval te remete a quais gêneros musicais?

Às vezes axé, funk, samba, música popular brasileira e até sertanejo.

Agora imagina, em pleno fevereiro paulistano, milhares de brasileiros cantando em espanhol, gritando “nuevayol” e batendo leques no ritmo do reggaeton.

Por dois anos consecutivos, essa cena tomou as ruas de São Paulo. O gênero, que durante muitos anos circulou de forma tímida no Brasil, agora arrastava multidões para a maior festa popular do país. Entre bandeiras latino-americanas, passos de perreo e um trio elétrico, brasileiros e hermanos latinos dividiam a mesma pista carnavalesca.

Talvez o mais curioso não fosse apenas ver o reggaeton ocupar o carnaval. Era perceber os brasileiros se reconhecendo, mesmo que por algumas horas, dentro de uma cultura que durante muito tempo pareceu distante. 

Para a DJ e jornalista Ludmilla Correia, esse distanciamento sempre esteve ligado à forma como o brasileiro construiu sua própria identidade cultural. “O brasileiro não se enxergava como latino”, afirma.

Mesmo distante da ideia de latinidade, o Brasil nunca esteve completamente desconectado da música produzida nos países vizinhos. Antes dos shows em grandes espaços, dos blocos de carnaval e dos algoritmos das plataformas de streaming, o reggaeton já circulava entre CDs gravados, comunidades no Orkut, festas latinas e pistas alternativas espalhadas pelo país.

Foi nesse cenário que surgiram algumas das primeiras iniciativas dedicadas exclusivamente ao gênero no Brasil. Entre elas, a página Reggaeton Brasil, criada por Dermeval Neves — conhecido como Arpe -– em 2005, um período em que o reggaeton permanecia fora da grande mídia brasileira e era frequentemente associado apenas a estereótipos ligados à sexualidade e à marginalização.

“O caminho foi longo, sofrido e desacreditado por muitos”

relembra Arpe.

Falar de reggaeton no Brasil era insistir em um gênero sem espaço. Foram anos de trabalho e persistência até que a página alcançasse a proporção que tem hoje. “A gente, como comunidade, existe há 20 anos. Não foi de uma hora para outra.” 

A cena reggaetonera se estruturou a partir de um senso de coletividade. Com a pouca visibilidade que encontravam, essas redes ajudaram — e muito — na circulação e na conexão entre quem consumia, produzia e amava a música. “A Reggaeton Brasil é muito mais do que um portal, é uma comunidade de apoio a um movimento. É um estilo de vida”, diz Arpe. 

Esse movimento não se limita à música. Segundo Arpe, o isolamento do gênero também está ligado à forma como o Brasil historicamente se posicionou culturalmente. Nossos olhos estavam sempre olhando para cima, para o Hemisfério Norte, esquecendo as riquezas da América Latina. “A gente associava o amor à nossa pátria ao modelo dos Estados Unidos e nesse modelo vinha também um preconceito com os latinos. A gente acabou fazendo um ‘ctrl-c, ctrl-v’ de coisas que não deveria copiar”, explica. Nesse processo, criou-se uma distância que não era geográfica, mas simbólica.

Ainda assim, antes dos grandes destaques da indústria, o brasileiro já havia presenciado o reggaeton em canções populares sem saber que aquela sonoridade pertencia ao gênero. Dermeval Neves destaca que projetos como a Reggaeton Brasil tiveram um papel importante nesse processo de reconhecimento: “A gente tem o papel de educar as pessoas e mostrar que aquilo que elas ouvem é sim reggaeton”. 

Você já ouviu a música “Quando ela me vê, ela mexe / Piri, pipiri, pipiri, piri, piriguete” ou “Amor, amor, se pensa que é assim / Que é só chamar que eu vou”? 

Mesmo sem serem frequentemente associadas ao gênero, Piriguete, do MC Papo, e Amor, Amor, da Wanessa Camargo, são reggaetons, sabia? Cantadas em português, esses dois exemplos foram até trilha sonora de novela. 

Se o reggaeton já circulava no Brasil, por que ele demorou tanto para ser reconhecido como um gênero? Parte dessa resposta passa pela forma como artistas brasileiros tentaram se aproximar desse universo. 

Uma das estratégias encontradas foi justamente a mistura de idiomas. Em muitas produções o português aparece junto do espanhol, formando o famoso portunhol. “A gente mistura o português com expressões em espanhol para marcar a identidade do gênero, para que as pessoas reconheçam: isso aqui é reggaeton”, explica o cantor e criador da página. 

Se o gênero vinha de fora, era preciso encontrar formas de dialogar com ele. Mas, nem sempre esse caminho era bem recebido. “Eu ouvi muito isso: ‘vai cantar samba, vai cantar pagode… brasileiro não dá certo no reggaeton’”, diz Arpe. 

Aos poucos, essa visão mudaria. 

Um dos principais exemplos dessa virada foi a cantora Anitta. Ao incorporar o reggaeton em suas produções e se inserir no mercado latino ao lado dos colombianos J. Balvin e Maluma, a cantora não só ampliou o alcance do gênero no Brasil, como também ajudou a romper a ideia de que artistas brasileiros não poderiam ocupar esse espaço. Em 2017, com “Downtown”, entrou nos rankings internacionais e marcou um dos primeiros movimentos consistentes de uma brasileira dentro desse circuito.

Nos anos seguintes, Anitta passou a lançar mais músicas e parcerias em espanhol, ganhando espaço fora do país. “Ela quebrou todos os preconceitos, é uma prova viva de que brasileiro dá certo no reggaeton”, destaca Arpe

A presença do gênero também começa a aparecer de forma mais constante fora dos nichos. O reggaeton passa a circular entre trends, coreografias e músicas que furam a bolha. Quando “Envolver” explode nas redes sociais, o gênero já encontra um cenário diferente daquele do início dos anos 2000, mais familiar para o público brasileiro, mais próximo do funk e muito mais presente no cenário digital. 

Com a cena mais conectada, artistas brasileiros começam a ocupar novos espaços. É nesse cenário que surge Andy El Ninja. Entre covers postados na internet, referências do trap latino e de artistas como Rauw Alejandro e Lenny Tavárez, o cantor começa a se aproximar do reggaeton ainda no fim da adolescência. O que antes chegava ao Brasil como influência distante passa a fazer parte da construção artística de músicos que já cresceram consumindo essas obras de forma muito mais próxima. 

Conheça Andy El Ninja, artista que faz parte de uma nova geração de brasileiros ligados ao reggaeton.

Andy El Ninja

Outro lado da consolidação do reggaeton no Brasil passa pelas rotas migratórias da América Latina. Antes de ser mais comum entre brasileiros, o gênero já fazia parte do cotidiano de comunidades de imigrantes que ajudaram a manter essa circulação cultural entre o Brasil e seus países de origem. 

“Os imigrantes deram o primeiro passo para trazer a música latina para São Paulo, para o Brasil”, diz o DJ Pancho Valdéz. 

Desde 2010, Pancho Valdez ajuda a manter a música latina circulando na noite paulistana. O DJ boliviano radicado em São Paulo acompanhou de perto a transformação do reggaeton no Brasil. 

Na entrevista, Pancho relembra sua trajetória no gênero e comenta as mudanças do público brasileiro, o impacto da internet e as perspectivas para o futuro da conexão latina no país. 

O começo foi tímido, o processo levou anos e os frutos começaram a aparecer

Quando falamos de festas latinas principalmente festas de reggaeton, não tem como não citar a Súbete. Criada em 2019 pelo Rafael Takano, conhecido como DJ Papi Tele, a festa rapidamente se transformou em um dos principais espaços ligados ao gênero em São Paulo. Na época, mesmo já tocando músicas latinas em seus sets, o DJ sentia falta de espaços ligados ao lado mais urbano e contemporâneo do gênero. “Eu queria fazer uma coisa urbana”, relembra. 

Poucos meses depois da inauguração da festa, a pandemia mudou completamente a dinâmica da pista e dos encontros presenciais. A Súbete passa então a acontecer virtualmente, mantendo edições mensais durante quase dois anos. O que parecia apenas uma adaptação temporária acabou revelando outra dimensão da festa. “Não era só um evento qualquer. Era um evento de comunidade, um evento de conexão”, afirma Rafael.    

Com o retorno do público às casas de show, a festa acompanhou o crescimento do reggaeton na cidade e também a formação de um público cada vez mais diverso. Diferente de outras festas latinas mais ligadas a nichos específicos, a Súbete ganhou força entre os brasileiros e ajudou a aproximar diferentes públicos da música urbana latina.

Essa é a mesma Súbete citada no início do capítulo, responsável pelo bloco de carnaval que, nos últimos dois anos, arrastou milhares de pessoas pelas ruas de São Paulo. 

A festa também chegou ao festival Lollapalooza. Rafael Takano comenta a popularização da Súbete, o crescimento do gênero e sua vivência dentro da cena reggaetonera. 

Dizer que o reggaeton já se tornou mainstream no Brasil talvez ainda seja precipitado. Mas as mudanças na circulação e no consumo do gênero são visíveis. 

Em um país do tamanho do Brasil — um verdadeiro laboratório musical a céu aberto — essas transformações dificilmente acontecem de forma linear. Ainda assim, talvez o crescimento do reggaeton e a onda de “latinidade” também reforce outra coisa: o Brasil é um país latino. E o fato de falarmos português nunca nos afastou das culturas, ritmos e experiências compartilhadas com os países vizinhos.

As disputas de visibilidade e protagonismo feminino

Durante muitos anos, o reggaeton foi associado quase exclusivamente a um universo masculino. As letras explícitas, os videoclipes hipersexualizados e a presença dominante de homens na indústria ajudaram a consolidar a imagem do gênero como um espaço pouco receptivo para mulheres. Mas reduzir o reggaeton apenas a essa perspectiva também significa ignorar a complexidade cultural construída ao redor dele. Para a pesquisadora colombiana Luisa Fernanda Espinal, conhecida como Doctora Perreo, o gênero deve ser entendido para além do entretenimento. “O reggaeton é um fenômeno comercial, mas também um fenômeno cultural e social”, afirma. 

Quando questionada sobre as críticas direcionadas ao gênero, Luisa confirma que elas tratam de questões reais. “O reggaeton, em muitas de suas líricas e representações visuais, acaba reproduzindo a violência e o machismo”, explica. Entretanto, um ponto de atenção destacado pela pesquisadora é que parte dessas críticas também revelam um preconceito histórico contra expressões culturais populares da América Latina. 

O que incomoda não é só o reggaeton em si, mas quem o produz, quem o dança e quem se identifica com ele. 

E mesmo falando de uma indústria predominantemente masculina, mulheres sempre estiveram presentes no gênero. O problema é que nem sempre receberam reconhecimento por isso. Luisa cita exemplos como o da cantora Glory, voz marcante em diversos sucessos do início dos anos 2000, mas frequentemente invisibilizada nos créditos das músicas. “Desde o início do reggaeton, usaram vozes femininas, mas a visibilização delas como artistas independentes só está acontecendo agora”, comenta.

Embora nomes como Ivy Queen tenham aberto caminhos importantes no gênero, o espaço para mulheres ainda acontece de forma desigual e os grandes expoentes são, na verdade, pontuais. “O caso da Karol G é uma exceção à norma”, afirma Luisa ao comentar as dificuldades enfrentadas por artistas mulheres para conquistar reconhecimento na indústria.

Para além das cantoras, essa disputa também aparece nas pistas e na vida de DJs.

A DJ Thaís Queiroz conta que trabalhar com reggaeton significou lidar constantemente com a necessidade de reafirmar o próprio conhecimento. “Você sempre tem que provar quem você é”, afirma. Segundo ela, o julgamento aparece tanto por ser mulher quanto pelo próprio imaginário construído ao redor do gênero. “Não é porque eu escuto determinada coisa que eu sou uma pessoa assim”, comenta ao falar sobre a associação automática entre mulheres que consomem reggaeton e os estereótipos ligados à sexualidade. 

Quando começou a tocar profissionalmente, Thaís percebeu que a maior parte da resistência vinha justamente de homens já inseridos na cena. “As principais críticas vieram de homens”, relembra.

A jornalista, pesquisadora e DJ Ludmilla Correia conta que sua experiência não foi muito diferente. Trabalhando com música latina há oito anos, ela considera que ainda existem poucas mulheres tocando reggaeton profissionalmente, mas que há uma maior aproximação feminina. Para ela, essa mudança passa pela construção de redes de apoio e identificação entre mulheres da cena. ‘As mulheres estão se juntando e mostrando sua força’, afirma. 

Apesar das dificuldades, as DJs contam que a cena reggaetonera brasileira é muito acolhedora e que com o crescimento das festas latinas o público foi se tornando cada vez mais fiel ao movimento. “As festas criaram um local seguro para pessoas se conhecerem, curtirem e viverem aquilo que gostam”, aponta Ludmilla.  

E essa identificação vai além das pistas nacionais. A DJ Thaís Queiroz relembra que, durante uma apresentação da equipe da Súbete no Perro Negro, na Colômbia, vários brasileiros viajaram para acompanhá-los. “A gente levou 60 brasileiros para nos ver tocando”, conta. Para Thaís, esse foi um momento muito especial de sua carreira. 

Mas essa aproximação não mudou apenas quem ocupa as pistas ou os line-ups das festas. A força da presença feminina também foi essencial para transformar a forma como as mulheres aparecem e se expressam dentro do próprio reggaeton.

Segundo a colombiana Luisa Fernanda Espinal, esse movimento também acompanha transformações culturais mais amplas vividas por diferentes sociedades latino-americanas. “As mulheres cada vez mais queriam falar e comunicar o erotismo e a sexualidade, e o reggaeton chega para muitas sociedades latino-americanas como um meio que o possibilita”, explica.

Hoje, essas narrativas aparecem muito mais. Seja em músicas, coreografias, posicionamentos e na liberdade de ser o centro de sua própria vida e carreira. 

Da pioneira Ivy Queen às vozes mais recentes da música urbana latina, esta playlist reúne algumas artistas que ajudam a conhecer um pouco mais a presença feminina dentro do reggaeton. 

Perreo

Yo quiero perrearte y perrearte y perrearte 

Métele al perreo 

Pegate al perreo, Queen! 

Yo perreo sola 

La clase de hoy se llama Perreo 101 

Siempre queremos perreo eeo

Um assunto comum entre muitas músicas de reggaeton é o perreo — que talvez seja uma das expressões mais simbólicas do gênero. 

O perreo, assim como o reggaeton, também possui raízes ligadas ao dancehall jamaicano e foi sendo transformado ao longo de sua circulação pelo Panamá, Porto Rico e outros países da América Latina. O cantor e criador de conteúdo Arpe explica que a dança acompanhou esse mesmo percurso. “Do mesmo jeito que a música foi exportada, a dança também foi”, diz.

O nome costuma gerar estranhamento para quem está fora desse contexto cultural. Arpe explica que o termo “perreo” deriva da palavra “perro”, cachorro, e faz referência direta à forma como a dança acontece — parecida com o rebolado do funk.

Quando nos aprofundamos na essência do perreo, a pesquisadora Luisa Fernanda Espinal, explica que ele deve ser entendido como uma prática cultural que tem a mulher e corpos feminizados como centro. Segundo ela, isso se dá porque o perreo funciona a partir de uma relação muito forte com o corpo, principalmente entre pessoas que historicamente foram incentivadas a expressar sensualidade através da dança e do movimento corporal. 

Nesse contexto, o erotismo deixa de aparecer apenas como provocação estética e é visto também como linguagem corporal, expressão e forma de visibilidade dentro da cena. “O erotismo é entendido como um saber para expressar, através do movimento do corpo, que uma pessoa tem a capacidade de sentir prazer”, afirma.

Para Luisa, essa dinâmica cria um contraste importante dentro do próprio gênero. “As letras das músicas tendem a ser hipermasculinas, mas o perreo é uma experiência hiperfeminina”, diz. E, à medida que mulheres conquistaram mais espaço dentro da indústria, essas narrativas também passaram a circular com mais força sob as perspectivas femininas. 

Essa explicação ajuda a entender porque o perreo costuma ser interpretado de maneiras tão diferentes entre quem vive e conhece essa cultura e quem apenas observa de fora. “As pessoas que não conhecem o perreo vão apenas escutar as músicas. A experiência vai ser outra”, comenta. 

Em sua tese intitulada El perreo en Medellín y su función social en la (re)definición de la identidad en las mujeres, Luisa reforça que o domínio do próprio corpo por meio da dança é uma arma poderosa de confiança e autoestima para mulheres. “É uma experiência onde as mulheres se sentem capazes, visíveis”, diz. 

O impacto cultural que o reggaeton passou a ocupar em cidades como Medellín, na Colômbia — campo de pesquisa de Luisa — também é muito importante. O gênero transformou a própria forma como a cidade passou a ser vivida, consumida e percebida internacionalmente. Durante muitos anos associada à violência e ao narcotráfico, Medellín passou a construir uma nova imagem ligada à música urbana, à vida noturna e ao turismo cultural impulsionado pelo reggaeton. 

O Projeto

Reggaeton conquista o Brasil é uma reportagem multimídia, voltada a destacar o desenvolvimento do reggaeton enquanto gênero e seu panorama no contexto brasileiro. 

Esse projeto foi criado como Trabalho de Conclusão de Curso de jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, no ano de 2026, 1º semestre. Esse Trabalho de Conclusão de Curso não reflete a opinião da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Seu conteúdo e abordagem são de total responsabilidade de sua autora.

Crédito texto:

Autora: Vitória de Paula
Orientador: Prof Dr. Arnaldo Marcilio Monteiro Lorençato
Coordenador do Curso: Prof Dr. Hugo de Almeida Harris

Crédito site:

Montagem do site: Supreme Digital – supremedigital.com.br

Produtos audiovisuais

Edição de áudio: Vitória de Paula e Altair Borges
Edição do vídeo: Vitória de Paula e Marcos Lomelino